Projetos acadêmicos sobre publicações digitais

A cada ano aumenta o número de projetos acadêmicos, sejam de graduação, especialização ou mestrado, relacionados a algum aspecto da cadeia produtiva das publicações digitais. Esse movimento é muito bem-vindo e o mercado agradece.

Desde 2010, após o lançamento do iPad, a tecnologia através das novas mídias, formatos e canais distribuição aumentaram as opções das editoras, agências e departamentos de comunicação, com o uso das publicações digitais.

Contudo, essas novas possibilidades exigem, cada vez mais, um novo pensar, desde a concepção até a experiência final de leitura, passando pela produção, recursos, distribuição e dispositivos.

As publicações digitais, sejam eBooks ou Apps, possuem uma relação entre conteúdo e suporte (leia-se, dispositivos, plataformas e formatos), muito mais densa e complexa, quando comparadas as versões impressas.

Integração conteúdo e suporte

E dessa combinação – conteúdo e suporte – que surgem as principais potencialidades (acesso off-line, personalização, notificações push) e fraquezas (incompatibilidade de formatos/recursos, variações de layout, nichos mercadológicos) das publicações digitais.

Bem, esses conceitos não são inéditos e quem acompanha nosso blog já leu alguns artigos que abordam a parte técnica da produção de publicações digitais – aqui, aqui e aqui.

Mas o que eu quero destacar, neste artigo, refere-se a crescente atenção que as publicações digitais vêm recebendo do setor acadêmico, primeiramente, com projetos de graduação, em especial, na área do design gráfico, e mais recentemente com pesquisas de mestrado.

Os projetos citados abaixo são de estudantes e profissionais com os quais tive algum contato, e representam uma amostra ínfima da produção acadêmica.

A intenção é destacar a importância da capacitação sobre publicações digitais, já na graduação, bem como a organização de referências bibliográficas, linhas de pesquisas e projetos, em cursos de especialização e mestrado, que fomentem no mercado, novas técnicas e usos para as publicações digitais.

Projetos Acadêmicos – Graduações

Sobre os projetos de graduação, cito um dos pioneiros, ainda em 2011, que resultou no APP Stroke Magazine, como trabalho de conclusão do curso de Design Gráfico, realizado por Filipe Soares, para Faculdades Integradas Barros Melo, Olinda/PE.

Recomendo a leitura do TCC – Desenvolvimento de Revista Digital Interativa para Tablets, pois mesmo após cinco anos de concluído, considero válido muitos dos conceitos e práticas citados no estudo, sendo totalmente aplicáveis nos projetos de publicações digitais.

Atualmente, a edição da Stroke Magazine está publicada no APP Dualpixel, disponível nas lojas da Apple Store e Google Play, para tablets e smartphones.

Desenvolver uma revista digital para tablets requer esforço do designer para tentar compreender e pôr em prática as melhores formas de comunicação com o novo usuário. Ter noção das formas de interação que cabe a determinado artigo ou propaganda. A tendência desse novo eixo é sua expansão em diversos setores criativos, onde uns farão propagandas interativas para as revistas e outros trabalharão no desenvolvimento do conteúdo. (Soares, 2011, p.27)

Ainda sobre graduações, outro destaque que tenho são os projetos realizados pelo Núcleo de Pesquisa e Produção de Conteúdos para Plataformas Digitais (NPC), do curso de Desenho Industrial da Universidade Federal de Santa Maria/RS.

Além do núcleo de pesquisa, o curso de Desenho Industrial, coordenado pelo professor Volnei Matté, produziu excelentes projetos de Publicações Digitais para tablets. Para os quais a Dualpixel deseja produzir os Apps e distribui-los pelas lojas do Apple e Google. Vamos aguardar!

Projetos Acadêmicos – Mestrados

Nos últimos dois anos percebi um aumento de projetos de mestrado, certamente motivado pela abertura de novas linhas de pesquisas sobre tecnologias relacionadas aos vários aspectos das publicações digitais, desde a produção à distribuição, envolvendo setores como editorial, EaD, material didático, design digital, entre tantos outros.

A seguir apresento a dissertação realizada pelo professor Maurício Dick, “Design de publicações digitais sistemáticas: um conjunto de orientações”, com a qual obteve o título de Mestre em Design, pela UFSC, em 2015.

No link acima você tem acesso a dissertação completa, a qual destaco o trabalho de pesquisa, seleção e catalogação das referências teóricas utilizadas para fundamentar a pesquisa.

Um conceito que me chamou atenção foi o termo affordance, descrito como o conjunto de atributos do objeto que permite às pessoas saber como utilizá-lo. (Dick, 2015, p.47)

Em uma publicação digital, devido ao seu caráter de interface, a importância das affordances se mantém de modo a guiar o usuário sobre o que o sistema é capaz de fazer e como ele pode manipular a interface para fazê-lo, seja para explorar os objetos interativos apresentados, seja para navegar pela estrutura da própria publicação (DICK; GONÇALVES, 2014).

A classificação desses atributos pode ser dividida em três grupos:

  • Affordance percebida: quando o objeto é interativo e é percebido como tal;
  • Affordance escondida: quando o objeto é interativo e não é percebido como tal;
  • Falsa affordance: quando o objeto não é interativo, porém é percebido como tal.

Ao designer é crucial ter o entendimento desses conceitos (entre outros relacionados ao design digital – interface) no ato de projetar, para evitar falhas na usabilidade das publicações, e em consequência, uma má experiência de leitura.

Baixe o artigo “A análise de livro digital: uma visão de suas affordances” para uma leitura bem abrangente sobre esse conceito.

 

falsa-affordance-verdadeira

Exemplo de falsa affordance (faixa azul) em um livro digital, em um contexto de affordances percebidas (estrela, vídeo e áudio). Fonte: DICK; GONÇALVES, 2014, p.21

 

affordance-escondida

Exemplos de affordances escondidas, à esquerda na imagem. Fonte: DICK; GONÇALVES, 2014, p.22

 

O resultado da pesquisa reúne um conjunto de orientações que abrangem os cinco eixos relacionados ao design de publicações digitais sistemáticas (não periódicas).

Forma gráfica do conjunto de orientações.

eixos

Fonte: Dick, 2015, p.81

Nos tópicos abaixo são descritos os conceitos chave para cada eixo (Dick, 2015, p.82-89). Para ter acesso as orientações completas (o que recomendo fortemente) faça a leitura da dissertação completa ou baixe o artigo “Orientações para o Design de Publicações Digitais Sistemáticas”, que reúne os principais conceitos da pesquisa.

Assim, a partir de um levantamento extenso da literatura – de maneira tradicional e sistemática – buscou-se contemplar as principais dimensões do projeto de uma publicação digital sistemática agrupadas nos diferentes eixos e subeixos desta proposição. Nesse sentido, enquanto os conceitos tradicionais do Design Editorial se mostraram muito presentes no eixo de Conteúdo, o escopo do Design Digital contribuiu em grande medida para a construção do eixo de Experiência. (Dick, 2015, p.90)

Eixo de Conceito

O eixo de Conceito envolve as definições iniciais da publicação digital – as quais influenciarão fundamentalmente nas decisões dos demais eixos. Tais definições contemplam as possibilidades potencializadas pelo meio digital, bem como o objetivo e o conceito do projeto.


Eixo de Conteúdo

O eixo de Conteúdo – que se divide em “Organização” e “Fluxo” – diz respeito à definição e organização do conteúdo, assim como à estruturação da publicação. Nesse sentido, se refere também ao uso das diferentes mídias.


Eixo de Funcionalidades

O eixo de Funcionalidades, por sua vez, agrupa as orientações que apontam possíveis recursos interativos da publicação digital e funcionalidades do suporte.


Eixo de Experiência

O eixo de Experiência leva em consideração aspectos de experiência do usuário, usabilidade e ergonomia, possuindo também um subeixo nomeado “Usabilidade”.


Eixo de Superfície

O eixo de Superfície trata das dimensões de apresentação e visualização do conteúdo.


Para saber mais detalhes sobre esse projeto, entre em contato com Maurício Dick, por email – mauricioedick@gmail.com, ou visite seu perfil no Research Gate, para conhecer outros trabalhos.

Conclusão

As publicações digitais não podem (nem devem) ser mais tratadas como um sub produto do material impresso – uma simples exportação para PDF. Hoje publicar conteúdo digital crossmedia, com fluxo integrado de produção, partindo da mesma matriz para atingir web, ereaders e mobile é o grande desafio do mercado editorial.

Enquanto a distribuição depende de fatores externos ao setor produtivo, no que diz repeito a concepção e layout já podemos colocar em prática conceitos que mesclem fundamentos do Design Editorial e Design Digital, e nesse sentido os projetos e pesquisas acadêmicas surgem como base teórica para cobrir essa lacuna no mercado.

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Felipe Santos

Especialista Adobe em InDesign, Photoshop e Digital Publishing Suite, com 25 anos de experiência nas áreas de pré-impressão, editoração e tratamento de imagens, transita desde 2010, após o lançamento do iPad, entre as midias impressa e digital. Apaixonado por publicações digitais é entusiasta de novas ferramentas, plataformas e formatos.

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