O que mudou no formato ePUB após 1 ano da união IDPF e W3C

Há quase 1 ano celebramos a união do IDPF e W3C, um movimento desejado e esperado por todos do mercado de publicações digitais, em especial, aqueles que trabalham com formato ePUB.

Na época escrevi um artigo para destacar as expectativas sobre o cenário futuro das publicações na web – W3C e IDPF unem forças para o avanço das Publicações Digitais.

Dividir as tarefas, em grupos de trabalho, foi o primeiro passo. Há dois principais grupos em andamento.

  1. Para manter o desenvolvimento do ePUB 3 foi criado o ePUB3 Community Group.
  2. Os novos padrões do Web Publication ficaram a cargo do Publishing Work Group.

 

Atualização ou Confusão

Não é novidade que a adoção do ePUB 3, pelo mercado, está ocorrendo em passos lentos, isso quando acontece. Lançado em meados de 2011, e mesmo após 6 anos, há várias editoras (no Brasil e no Mundo) que ainda confiam no ePUB 2 para distribuição dos seus eBooks.

Por que será? há algumas razões (poucas, na verdade) que motivam essa permanência no passado.

Para livros típicos (somente textos, imagens e tabelas) o formato ePUB 2 atende bem. E o fato da Amazon utilizar um formato proprietário (.mobi) reduz o apelo por atualizações e novos recursos do ePUB 3.

Mas fique atento! Há vários benefícios para quem produz em ePUB 3.

  • Produção de conteúdo semântico, com suporte as novas marcações do HTML5 – article, section, figure, entre outras;
  • Possui toda a estrutura necessária para acessibilidade;
  • Compatibilidade com leitores de ePUB2;
  • Pode ser editado pelo Sigil;
  • Permite a produção de ePUB em layout fixo;
  • É convertido para .mobi pelo Kindle Previewer 3

O que eu quero dizer com tudo isso?

Que o momento é de unir forças – editoras, empresas de softwares, instituições de classe – para estabilizar o mercado e permitir que mais empresas e profissionais sintam-se à vontade na produção e distribuição com formato ePUB.

Digo isso, em especial, pelo mercado brasileiro. Quem lembra do primeiro “censo” do livro digital, no qual mais de 60% das editoras pesquisadas declararam não produzirem versões digitais de suas obras, nem em ePUB 2!

A partir desse cenário, o que motiva o ePUB3 Community Group propor, neste momento, uma atualização do formato ePUB 3.1, que não será compatível com a versão atual 3.0.1.

Alguém, nesse grupo, acreditou que o mercado iria migrar para um formato, que do ponto de vista prático acrescenta muito pouco?

E no fim do dia, há uma nova proposta de versão – ePUB 3.2, mas razoável, mantendo a compatibilidade com a versão corrente 3.0.1. Saiba mais neste link

Uma curiosidade da versão 3.1 (a que foi derrubada) foi a tentativa de eliminar o sumário (NCX) do ePUB 2. No Brasil, todos, os eReaders disponíveis são compatíveis apenas com ePUB 2. Dessa forma, de onde viria o sumário externo para esses ebooks?

 

A frente do seu tempo – ePUB Publication

Sem dúvida, a proposta do ePUB 3.1 tem seus méritos, em especial pelo recurso Rendition.

Através dele poderíamos distribuir diferentes versões do eBook para diferentes dispositivos, conforme os recursos utilizados. O conceito de ePUB Publication é apresentado, como sendo uma coleção de arquivos, que formam uma versão do eBook (Rendition).

Estrutura de versões – ePUB Package – disponíveis dentro do ePUB Publication. Variações do mesmo eBook num único arquivo

Neste artigo – Como Publicar para Mobile – comento sobre o uso do Rendition para melhorar a distribuição do ePUB de layout fixo, possibilitando a entrega de ePUB Publications (arquivos) diferentes em smartphone e tablet, por exemplo.

 

Um estranho no ninho

Recentemente, o líder técnico do Publishing Work Group, Ivan Herman, escreveu um artigo que numa primeira leitura mais parece uma crítica, a própria W3C, pela dedicação em projetos sobre Web Aplication, entre outros recursos, em detrimento as publicações, ou melhor, ao documento na web.

Mas, lendo novamente, a crítica maior é direcionada ao IDPF (de forma velada), que forjou o formato ePUB e, na época, não se preocupou com a compatibilidade com os navegadores.

Desde o início o ePUB tem uma barreira que o separa da web. A estrutura do formato não permite que um arquivo HTML seja adicionado ao pacote, e tão pouco, um arquivo ePUB pode ser exibido direto no navegador*, seja descompactado ou não.

(*) Leia no tópico abaixo Lar, doce, lar, as recentes atualizações para que o ePUB se sinta em casa, quando visualizado por um navegador.

Se você nunca viu um ePUB por dentro, prepare-se! a imagem abaixo mostra a verdade nua e crua. A maneira que um ePUB é construído torna quase impossível para um navegador conseguir achar o arquivo correto para exibir. Não há o index.html.

Formato ePUB descompactado. Perceba o longo caminho realizado pelo leitores de eBook para conseguir exibir o conteúdo na tela.

Vou tentar explicar. Um leitor de ePUB começa sua odisseia pelo mimetype (application/epub+zip), que declara numa linha de código o tipo da publicação.

Uma vez sabendo que se trata de um ePUB, com vários arquivos compactados, o próximo passo é saber onde estão esses arquivos.

Tarefa para o container.xml localizado na pasta META-INF (obrigatória), e desde ponto o eReader é direcionado para o content.opf. Um arquivo manifesto que reúne em quatro grandes blocos todas as informações do ePUB – metadada, manifest, spine e guide. Essa última, já declarada como depreciada no ePUB 3.2

<?xml version=”1.0″ encoding=”UTF-8″?>
<container version=”1.0″ xmlns=”urn:oasis:names:tc:opendocument:xmlns:container”>
    <rootfiles>
        <rootfile full-path=”OEBPS/content.opf” media-type=”application/oebps-package+xml”/>
   </rootfiles>
</container>

Detalhe de um arquivo container.xml, com o caminho para o content.opf

Só depois de passar por todos esses caminhos é que você poderá começar a leitura no seu eReader preferido. Um navegador não está preparado para fazer toda essa travessia!

 

O show não pode parar

Citando Ivan Herman “obviously, we cannot expect browser manufacturers to solve everything by themselves”.

Não há como esperar que os navegadores tomem a iniciativa para melhorar o acesso das publicações digitais pela web.

Por isso, os trabalhos continuam, e o primeiro resultado do Publishing Work Group foi publicado no início de janeiro, como First Public Working Draft.

Essa é a primeira versão consolidada sobre Web Publications trazendo sua estrutura de distribuição, segurança, recursos de leitura, etc.

Não tenho dúvidas que o próximo passo das Publicações Digitais será baseado na Open Web Platform e suas tecnologias.

Acredito que o trabalho coordenado dos 2 grupos mais atuantes – ePUB3 Community Group e Publishing Work Group – seja de total importância. Tendo clareza, entre os participantes e líderes de cada grupo, qual o função e objetivo de cada um.

Não é o momento de revisar decisões passadas. Mudar o jogo do ePUB nessa altura não vale a pena. Não adianta atualizar o formato, rever as especificações, incluir novos recursos, etc.

É preciso entender (e aceitar) que o ePUB é (ou talvez, sempre tenha sido) um formato de transição.

Atendeu bem o objetivo de educar (pelo menos alguns) editores, autores, designers, entre outros participantes do processo sobre a cultura do digital em projetos editoriais.

 

Uma andorinha não faz verão

Todo esse movimento sobre a versão 3.1, seguido da revisão para 3.2, que retorna com recursos do ePUB 3.0.1, aliada a publicação do First Public Working Draft deixou instigado alguns profissionais do mercado de livro digital.

Daniel Glazman, Former co-chairman of the W3C CSS Working Group, é um desses profissionais que não está plenamente satisfeito com o progresso dos trabalhos.

Por isso, decidiu trabalhar numa nova proposta de formato para livros digitais – WebBook. Utilizando somente padrões web consolidados – HTML, CSS, JS, SVG, sem arquivos XML e manifesto.

Toda estrutura de navegação, metadados, sumário, etc pode ser criada e editada por qualquer software compatível com HTML.

Um ponto interessante é que todo conteúdo do WebBook pode ser acessado através do arquivo index.html. Ou seja, um simples upload para o servidor e o eBook já está disponível nos navegadores.

E a compatibilidade com os leitores de ePUB? Você pode estar se perguntando. Sim, ela existe.

É possível converter arquivos ePUB 3 para um formato ePUB 3 compatível com WebBook, ou seja, uma vez descompactado esse novo epub possui um index.xhtml para acessar todo conteúdo.

Bem, o formato está na versão 1.0, disponível para comentários e contribuições no github. O que dizer? Obrigado, ao Glazman pela inciativa.

 

Lar, Doce, Lar

Apesar do ePUB ser constituído essencialmente por tecnologias web – HTML e CSS, durante toda a sua existência ele foi um estranho no ninho, para os navegadores, conforme já detalhei neste artigo.

O verdadeiro patinho feio (não posso assegurar que vai se transformar num cisne…), mas com a ajuda de extensões/plug-ins os navegadores conseguiram acesso a estrutura de links e XML do ePUB para exibir o conteúdo na tela.

Enquanto o projeto Readium 2 não é liberado, ficamos orfãos de um leitor com qualidade para ePUB de layout fixo, no desktop

Sem dúvida, a extensão para o chrome – Readium é a opção mais conhecida do mercado. Tínhamos no Readium uma referência para o suporte ao ePUB 3 – layout fixo e fluido. Sendo possível exibir com perfeição os recursos de interatividade, animação, com ótimos recursos para controle da leitura.

Infelizmente, me refiro ao Readium no tempo passado, pois devido a uma mudança do chrome, as interatividades aplicadas ao ePUB, através do Adobe InDesign, deixaram de funcionar.

E para surpresa de muitos (me incluo nessa), o navegador da Microsoft – Edge saiu na frente e consegue exibir arquivos ePUB diretamente na tela, sem uso de plug-ins ou extensões.

Navegador da Microsoft – Edge surpreende pela compatibilidade com formato ePUB e qualidade da visualização para eBooks de layout fluido.

Funciona bem para ePUB 3 de layout fluido mantendo toda estrutura da formatação, para livros típicos é uma boa opção. Em relação ao ePUB de layout fixo o suporte é fraco e não exibe os recursos interativos.

 

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Felipe Santos

Especialista Adobe em InDesign, Photoshop e Digital Publishing Suite, com 25 anos de experiência nas áreas de pré-impressão, editoração e tratamento de imagens, transita desde 2010, após o lançamento do iPad, entre as midias impressa e digital. Apaixonado por publicações digitais é entusiasta de novas ferramentas, plataformas e formatos.

5 comments

  1. Muito boa matéria. parabéns. Bom lêr algo com contúdo e que faça sentido. Obrigado por compartilhar.
    abs

    1. Muito interessante essa matéria e muito bem escrita. Os leigos nem imaginam os caminhos, em nível técnico, que um livro digital percorre. Parabéns e gratidão, Felipe, por compartilhar seus esinamentos,. Sinto-me honrada e feliz por fazer parte do grupo de alunos seus. Um abraço.

      1. Olá, Wanda
        Grato pelas palavras. E continue firme nessa jornada. Aguardo por novidades…

        Abs

  2. Boa matéria, obrigado pelas atualizações.
    Chegou a usar o webBook? Me parece bem interessante.

    1. Olá, Guilherme

      Sim, testei a versão disponível pelo próprio Glazman, Moby Dick. Funciona bem direto no browser. A questão é como produzir o WebBook. Na página do Glazman ele indica o BlueGriffon, para fazer a conversão do ePUB 3 para WebBook.

      Mas acredito que ele tenha feito esse formato mais para provocação. Minha torcida está pelo Web Publication que o W3C está formulando

      Abs

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